Análise técnica do CLOSEDQUORUM: o malware que usa quórum de IA como C2
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Análise técnica do CLOSEDQUORUM: o malware que usa quórum de IA como C2

23/09/2026 · 8 min · Cibersegurança

Quando as primeiras manchetes sobre o CLOSEDQUORUM saíram, o padrão da cobertura já era previsível: "Malware com inteligência artificial decide sozinho como destruir computadores". Quem passa o dia analisando logs, tráfego de rede e dumps de memória aprende rápido a ignorar esse tipo de alarde e abrir direto o relatório da Cisco Talos e os feeds do AlienVault OTX.

A engenharia do binário é bem mais prática do que as manchetes sugerem. Trata-se de uma prova de conceito (PoC) que testa uma ideia simples: usar APIs públicas de modelos de linguagem (LLMs) como canal de comando e controle (C2), terceirizando a escolha da próxima ação tática para um grupo de IAs.

Neste artigo, analiso como o CLOSEDQUORUM foi montado, como funciona a votação entre os modelos, por que o código quebra na prática e como a detecção comportamental de EDR resolve o problema sem depender de assinaturas de rede.


O que é o CLOSEDQUORUM?#

Identificado pela equipe da Cisco Talos durante o projeto CAIRN (Cognitive Artifact Intelligence Research Network), o CLOSEDQUORUM é um binário para Windows com um mecanismo incomum de C2.

Em vez de se conectar a um servidor tradicional, onde um operador envia comandos manualmente ou um script devolve tarefas estáticas, ele faz requisições HTTPS para quatro provedores comerciais de IA:

  1. DeepSeek
  2. Qwen (Alibaba)
  3. Mistral AI
  4. Google Gemini

O autor tentou implementar o que a Cisco Talos chama de deslocamento de esforço (effort displacement): o malware faz o levantamento inicial da máquina, repassa essas informações aos modelos via API e executa a ação que receber mais votos.

[Vítima Infectada]
       │
       ├─ Coleta: Processos, Privilégios, Arquitetura, Usuário
       │
       ▼
 [Dispatcher de IA] ──── Consulta simultânea via HTTPS ────┐
       │                                                   │
       ├── DeepSeek API (Voto A + Voto de Minerva)         │
       ├── Qwen API (Voto B)                               │
       ├── Mistral AI API (Voto C)                         │
       └── Google Gemini API (Voto D)                      │
                                                           │
                                                           ▼
                                                 [Mecanismo de Quórum]
                                                           │
                        ┌──────────────────────────────────┴──────────────────────┐
                        ▼                                                         ▼
                 [STEAL / INJECT / PERSIST]                             [Exfiltração Discord]
                 Execução da ação majoritária                           Webhook com raciocínio

A anatomia do mecanismo de quórum#

O autor evitou pedir para as IAs escreverem código em tempo real. Qualquer um que já usou LLMs para gerar scripts sabe que a chance de um erro de sintaxe quebrar a execução é enorme. Em vez disso, ele limitou as opções a quatro comandos fixos:

Ação TáticaDescrição da CargaMecanismo Interno
STEALColeta de credenciais e chavesDump de memória do lsass.exe, leitura de bancos SQLite de navegadores e busca por arquivos de carteiras cripto
INJECTEvasão defensivaInjeção de código via Process Hollowing ou Early Bird APC Injection
PERSISTSobrevivência após rebootCriação de chaves Run no Registro do Windows ou Tarefas Agendadas (schtasks)
MOVEMovimentação lateralCódigo de varredura SMB/WMI (incompleto no binário analisado)

Como a votação acontece#

Ao rodar na máquina alvo, o malware faz uma checagem rápida:

Cada modelo devolve a opção escolhida e uma justificativa curta:


Por que o CLOSEDQUORUM falha na prática#

Quem lê notícias sobre o caso pode achar que o malware é uma arma autônoma sofisticada. Olhando o binário por dentro, a realidade é outra: o código é frágil, lento e cheio de pontas soltas.

1. Latência alta demais para C2#

Em uma invasão real, o canal de controle precisa responder rápido ou operar de forma assíncrona bem calculada. O CLOSEDQUORUM precisa fechar quatro conexões TLS 1.3 independentes, esperar o tempo de inferência de cada provedor e consolidar os resultados. Isso coloca entre 3 e 10 segundos de espera apenas para decidir o próximo comando. Em termos ofensivos, é uma eternidade.

2. Quebra de parsing e alucinação#

Modelos de linguagem não garantem saídas estritamente previsíveis. Se uma das APIs responder com um texto de cortesia antes do JSON, ou se recusar a responder por causa de filtros de segurança, o parser do binário quebra. Como o código não tem um tratamento decente para saídas fora do padrão, a thread simplesmente trava.

3. Chaves de API expostas no executável#

Para consultar os provedores, o binário precisa carregar credenciais. Na amostra que a Cisco Talos analisou, o autor deixou tokens de teste e webhooks fictícios. Se alguém colocar esse malware em circulação com chaves reais, qualquer sandbox automática de análise (como VirusTotal ou Hybrid Analysis) extrai esses tokens em dois minutos. O resultado: contas canceladas na hora e trilha de pagamento exposta.

4. Código inacabado#

O módulo MOVE sequer funciona. É apenas um esqueleto de funções sem implementação real. Isso deixa claro que a amostra encontrada era um kit de teste, um laboratório experimental para validar a ideia de votação entre APIs, e não um artefato pronto para operações reais.


O ponto que realmente exige atenção: evasão de rede#

Mesmo com todas as falhas de implementação, o CLOSEDQUORUM traz uma ideia perigosa para a defesa de perímetro: o uso de serviços confiáveis para esconder o tráfego.

A maioria dos firewalls corporativos, proxies e sistemas de detecção de intrusão (IDS) monitora C2 buscando:

  1. Conexões para domínios novos ou com baixa pontuação de reputação.
  2. Certificados TLS autofirmados ou com dados suspeitos.
  3. Intervalos regulares de comunicação com IPs desconhecidos.

Quando o malware passa a conversar com APIs oficiais de IA, o tráfego vai para hosts com reputação impecável e certificados válidos:

Se a rede monitorada já utiliza ferramentas de IA no dia a dia, esse tráfego se camufla no meio das conexões legítimas de desenvolvedores. Sem inspeção SSL profunda e análise de conteúdo, o bloqueio tradicional por IP ou domínio não enxerga nada de errado.


Como defender o ambiente#

A lição mais importante do CLOSEDQUORUM é simples: quem deu a ordem não muda o comportamento do payload. Pouco importa se a instrução de despejar senhas veio de um operador humano ou de um consenso entre LLMs. A ação executada no sistema operacional continua sendo maliciosa e deixa rastros claros.

Para barrar esse tipo de ataque, trabalho com três camadas práticas:

1. Proteção de memória do LSASS#

O objetivo central do comando STEAL é extrair hashes e senhas do processo lsass.exe. No Windows, mantenho duas defesas ativas por padrão:

# Ativa PPL para o LSASS no Registro do Windows
Set-ItemProperty -Path "HKLM:\SYSTEM\CurrentControlSet\Control\Lsa" -Name "RunAsPPL" -Value 1 -Type DWord

2. EDR baseado em comportamento (IOAs)#

Bloquear hashes estáticos, como os 18 indicadores listados no AlienVault OTX, resolve apenas a amostra conhecida.

Soluções de EDR corporativo, como o CrowdStrike Falcon, operam com foco em Indicadores de Ataque (IOAs). O sensor não precisa identificar o IP ou a reputação do servidor que enviou o comando. Quando um binário desconhecido tenta executar Process Hollowing (MITRE T1055) ou abrir um handle de leitura (PROCESS_VM_READ) contra processos de autenticação, o CrowdStrike Falcon intercepta a cadeia de execução direto no kernel e bloqueia a ação em tempo real. Para quem administra frotas de endpoints Windows e precisa conter ransomware e técnicas evasivas de C2, essa cobertura comportamental é o divisor de águas.

3. Caça a artefatos com o CAIRN#

O projeto CAIRN da Cisco Talos abriu uma frente útil para quem faz Threat Hunting: buscar artefatos cognitivos compilados dentro dos binários.

Em vez de olhar apenas para cabeçalhos PE comuns, vale inspecionar arquivos suspeitos em busca de:


Indicadores de Comprometimento (IOCs)#

Para quem precisa alimentar regras no SIEM, EDR ou rotinas de Threat Hunting, compilei os hashes SHA256 catalogados pela Cisco Talos e documentados no pulso do AlienVault OTX. Eles correspondem às seis compilações experimentais do CLOSEDQUORUM identificadas na cadeia de desenvolvimento:

TipoHash SHA256Observações
SHA256250d4fa37488af9b025333fa17705573d721467b203765bc360890b4f5a90cd7CLOSEDQUORUM (Amostra / Build inicial)
SHA256c4dc171f2513fcaf9d5ecc815a94aee4063b213ab380f80bd3ac422dee5205a7CLOSEDQUORUM (Cadeia de compilação)
SHA256c13cea04f598e2b0c248d603a6e31bd13aabb64d8149c1b6a77b64e0b983a86fCLOSEDQUORUM (Cadeia de compilação)
SHA256f5f1f8c3e7b883793800ab6ccf21b3e60bd0730f300b4595fe74a33adc17a63cCLOSEDQUORUM (Iteração de votação)
SHA2565191cf625dfc209a347f137b50aea199e82040fd5ee9086fb3e2de73c133f3cbCLOSEDQUORUM (Cadeia de compilação)
SHA256eddbd0ecf7195d38fefae5b9d393abfa79e6f3f94bde19308ecef130a05a42e5CLOSEDQUORUM (Amostra analisada)

Endpoints de API consultados pelo quorum#

Referência do pulso: AlienVault OTX Pulse 6ab431db415b8cd13de69a7e


Conclusão#

O CLOSEDQUORUM é lento, instável e quebra facilmente. Mas ele mostra para onde parte do ecossistema de ameaças está olhando: usar plataformas legítimas em nuvem para contornar defesas de perímetro.

Para quem cuida de infraestrutura, a resposta não muda: privilégio mínimo, proteção ativa nos processos de credenciais do Windows e sensores de EDR olhando para o comportamento do software na máquina. Quando a defesa do endpoint está bem ajustada, o método que o malware usou para decidir o ataque simplesmente não faz diferença.

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